Mas cadê meus companheiros? Cadê?
Que cantava aqui, mas eu cadê?
Na calçada, no terreiro, cadê?
Cadê os companheiros meus? Cadê?
Caíram na Lapa do Mundo, cadê?
Lapa do Mundão de Deus, cadê?
Mas tinha um que deixou que era seu
Pra ir correr um trecho no chão de São Paulo
Não durou um ano, o companheiro se perdeu
Acabou se atrapalhando com a lua no céu
Num certo dia, num fim de lacuta
Pelas Ave Maria, chegou o fim da luta
Foi quando ia atravessando a rua
Parou, escoviu no chão, pois se espantou com a lua
Ficou debaixo das rodas dos carros
Ficou debaixo das rodas dos carros
Ficou debaixo das rodas dos carros
Olhando pra lua, rai soltando
Naquela hora, na porta do rancho
Ela também viu a lua por trás dos garranchos do céu
Mertou o caçundo contra o peito seu
O coração deu um pulo, os peitos tremeceu
Soltou um gemido, o fundo das vistas escureceu
Valente seu Deus meu, após eu vi remontar
Nas portas do céu, rai soltando
Mas tinha um que só pedia que a vida fosse
Uma função, noite e dia, que a vida fosse
Pegada com galinha, vinho, queijo e doce
Sonhando a vida assim, arriscou mesmo sem posse
Deixando a vida ruim, então se arredirou-se
Levou-lhe um miguimão e a festa se acabou
Se arrediçou
Mas tinha um que só vivia toda risada
Quando ele aparecia, a turma na casada
E se arrevei, fulou, fulou das alegrias
O verão da tristeza e da dor e magoada
Pegava a viola e riscava a doada
Desmantava a tristeza e espanhava a zoada
Louvava os companheiros numa boniteza
Que aos poucos o terreiro voltava a tristeza
Esse malunga alegre de alma maneira
Também tinha nos peitos a febre perdedeira
Se apaixonou por uma moça no dia de feira
Na hora no que a mucama gera companheira
De um valentão de fama e acabador de fé
O cujo pano soube ver feito uma fera
Pois tinha fama de nobre de qualquer maneira
Calou com a punha, ladava e cantadeira
O verão da tristeza e da dor e magoada
Morreu com uma amidoide e uma moda manguada
Com a lágrima no zóio, na boca uma risada e sotão
E mais cadê aquele vaqueiro antenouro
Com seu burro trecheiro e seu gibão de couro
Esse era o cantador dos meios defendentes
Cantando sem viola alegrava a gente
Ano passado na derradeira enchente
Um galeão danado, um rabo avalente, ai sotão
Chegou então a boiada do norte
O dono e os vaqueiros arriscaram a sorte
O resultado dessa travessia
Foi um sucesso triste e vigiave maria
O resultado da bambura foi
Que o rio levou os vaqueiros, o dono, os burro e os boiás sotão
De nada então o antenouro sumiu
Dos muitos que aqui passam, jura que já vi
Na carantonha, na serra encantada
Pelas oramedonhas vagam a boiada
O trem seguindo um vaqueiro canouro
A toada e o rompante jura de antenouro
E boi
E boi lá
E boi lá
E boi lá
E boi lá
E boi lá
E boi lá
E boi lá
E boi lá
Legenda Adriana Zanotto