Alto! Não se mexa!
Não mude a posição que estou a pintá-lo!
Oh,
disparate! Minha senhora é assim de cupro à arma!
E deixe-me ao menos mudar de posição,
que este não é o meu lado mais fotogénico!
Pronto! Lá me borrou a pintura!
Ei, ei, ei! Olha que piada que mandei por isso!
Não é isso, senhor!
Quando eu digo que me borrou a pintura,
quero dizer que me destruiu a inspiração!
Oh, as melhores desculpas, menina!
Mas porquê que não volta a inspirar-se?
Inspire-se em mim! Inspire-se à sua vontade,
que eu não digo nada a ninguém!
Ah, é sério?
Quero dizer que não se importa de ser o meu extro?
O seu quê?
O meu extro! O senhor não sabe o que é que quer dizer extro?
Dê-lhe a minha palavra de honra que não sei!
Eu estou a fazer já a ficar meio maluco!
O meu extro quer dizer musa!
Ah, pois!
O senhor não tem muita?
Quer dizer, eu tenho! Eu tenho!
Quer dizer,
não tenho isso que você está a dizer,
mas tenho outra coisa!
Não diga disparates,
homem! Olhe-te para você,
tudo quanto está de mais par!
Nota-se muito!
Bom, adiante!
Vamos tentar a poesia!
Vamos, sim, senhora!
Diga-me uma coisa, você já alguma vez fez...
fez uma?
Ah, isso são perguntas de vaza!
A senhora sabe como é que eu sei!
Quando eu era mais novo, não é?
A massa não abundava e o remédio às vezes era...
Enfim, era fazê-las!
Oh, sim! Desta vez parece que acertei!
Faça-me então uma a mim!
Espera,
que ninguém ia fazer uma coisa dessas
aqui na frente desta gente toda!
Não,
olha que eu quando me sinto inspirada faço-as em qualquer lugar!
Mas aquela é uma descarada!
Olha, agora mesmo,
neste momento, está mesmo a precisar fazer uma!
Oh, menina! Oh, menina!
Já que é assim, faça-me uma a mim primeiro!
Quero!
Ai, quero!
Seja, vou-lhe a fazer!
Oh,
menina,
tenha juízo! Menina,
tenha juízo nessa cabecinha,
aqui na frente desta gente toda!
Vamos ao menos ali para trás,
que ninguém nos vê!
Não tenha receio!
Eu faço-lhe a mesma aqui!
Prepare-se para receber toda a minha inspiração!
Pronto, menina, já estou preparado!
Oh!
Oh, o quê?
Oh!
Oh, o quê?
Oh, tu que tens do mar no gesto e o peito!
Mal!
Dá-me o teu estro assim, com todo o jeito!
Que tal, gostou?
Olha, sinceramente, não senti nada!
Homem insensível que nem ao menos entende
a suave essência do estro da minha poesia!
Olha,
mostra-me agora a tua para satisfazer o meu pedido intelectual!
Não, não, senhora, não é! Esta tipo é maluca!
Mas também não era homem,
não era nada! Então lá vai!
Pega o meu estro assim, com todo o jeito!
Vê lá a musa, se me pões direito!
Oh! Oh! Lá se me acabou a inspiração!
É sinal de que ficou satisfeitinha!
Hoje, disso! Eu hoje estou em dia de azar!
Ai,
sinceramente,
não sei o que é que é isso fazer consigo!
Oh, menina, isso é muito complicado!
Ah,
já sei! Vamos tentar outro teatro! Vocês já alguma vez representou?
Menina,
isso nem se pergunta! Então,
ao dia 8,
para pagar ao senhorio,
é cá o verdadeiro drama que nem queira saber!
Não me diga! Parece que desta vez sempre
acertei! Quer fazer uma peça comigo?
Olha,
a minha especialidade é tragédia! Lá em casa,
quando chego aos copos,
é caca da tragédia! Nem faz ideia!
Convertendo-nos,
então,
pelo drama! Vamos representar uma tragédia grega!
Olha, grego, vão ver, eu não tardo muito!
Presta atenção!
Sim?
Eu sou uma princesa encantada que o
vilão tem sequestrada no seu castelo!
Muito bem, muito bem!
Você é o príncipe valente que vem
cavalgando para salvar a sua princesa!
Ora pronto, começa o drama!
Mas começa como?
Isto é um disparate! O que é que eu hei de dizer?
Oh,
homem,
eu já lhe expliquei a ação da peça! Não torne as coisas difíceis!
Você vai chegar a cavá-lo numa noite da tempestade!
Olha, então vou a cavá-lo! Então lá vai!
Cinco passos de cavalo!
Deve ser o meu amor que chega para me salvar!
É,
minha filha,
é o teu amor com os sapatos do teu pai,
filha!
Príncipe, meu príncipe,
vais salvar a tua princesa!
Vais-te disso a gozeiro, meu amor!
E não é por acaso que estás a ver a ó Maria?
Tira o cavalo da chuva, filha!
Onde estás tu, meu amor, que não te vejo!
Cá em cima, no castelo,
junto às ameias!
Agora já te vejo,
meu amor! Isto é tudo ameias,
filha,
é tudo ameias!
Parece o castelo do queijo, filha!
Espera aí,
meu amor,
que já vou para os teus braços!
Oh,
ninfa azul dos meus sonhos! Suave e
vaporosa como o noturno de Shopim!
Sinto que o nosso amor medra hora a hora!
Oh, sim, meu amor!
Medra para nós dois!
Bom apetite, filha, bom apetite!
Oh, meu príncipe valente!
Como te sacrificas para salvar a tua princesa!
Eu cá sou assim,
filha,
a mim ninguém me verga! Nunca!
Ajoelha-te a meus pés,
meu cavaleiro,
e veja-me as bordas da túnica!
Oh,
filha,
sei que não! Não pode ser nada que eu
nunca dei nada em cenas de meia altura!
Vamos, amor!
Ajoelha-te a meus pés! Cai, meu amor, cai!
Eu cais,
filha! Não eras tu que tinhas a culpa,
filha!
Vamos,
seu cavaleiro,
e veja-me as bordas da túnica!
Oh,
menina,
deixe-te disso! Oh,
menina,
deixe-te disso!
Entendi,
mas é juízo e ele agora vai gerar as bordas!
Da fama nunca mais me livrava,
mas tem,
tem,
tem!
Pronto!
Lá se me acabou o drama! O senhor é mau!
Vou procurar o meu extro noutras paragens!
Oh, mousa dos meus sonhos! Oh, inspiração fatal!
Oh, inspiração fatal! Vai lá aqui a parte!
Vai lá cortar o cabelo,
homem! Vai lá a quatro voltas ao milhagrame!
Vai lá se arranjar o zú de camelo! Vai para o rei que a parte!